Não passava da meia noite quando acordei, na rua o barulho do barzinho em frente à minha casa ainda fervilhava.Da janela podia avistar as poucas pessoas que ainda restavam sentadas às mesas colocadas na calçada.Os homens e mulheres ali sentados pareciam não ter preocupação alguma.Bebiam e se divertiam como se aquele fosse o ultimo dia de suas vidas. Através de uma janela meio embaçada e cheia de poeira eu conseguia avistar dentro do bar uma mulher de cabelos loiros gema de ovo, sentada no colo de um senhor que aparentava ter mais de setenta anos de idade.A moça lhe beijava calorosamente a boca.Provavelmente se tratava de alguma garota de programa que aquele senhor convidara para quem sabe se sentir um pouco mais jovem por alguns instantes.
Era incrível como aquelas pessoas se satisfaziam com aqueles momentos de distração provocados pelo álcool. E enquanto eles se divertiam e se preparavam para ir para casa dormir, dali de cima eu acabara de acordar. Provavelmente se assustariam se olhassem para cima e percebessem que estavam sendo observados por aquela estranha figura. Já fazia alguns meses que eu não fazia a barba e os cabelos desgrenhados pelo tempo aprofundavam ainda mais a minha aparência depressiva, bem como as olheiras causadas pela insônia que atormentava as minhas noites. Nove anos já haviam passado e eu ainda não conseguia me recuperar daquele trauma. A dúvida ainda corroía a minha mente e o sentimento de culpa me atormentava cada dia mais.
Voltei à minha cama na intenção de quem sabe conseguir pegar no sono novamente,mas o medo de que se repetisse aquele pesadelo que andava perseguindo as minhas madrugadas me impedia de pregar o olho. Peguei um resto de sanduíche que havia deixado no pé da cama há alguns dias e comecei a mastigar. Percebi que estava na hora de sair para ir até o supermercado.Há tempos tentava prorrogar esse passeio até o mercado da esquina mas o armário já esvaziara há algum tempo e o tedioso programa agora se fazia inadiável.Era assim há nove anos ,só saía de casa quando havia uma extrema necessidade, como ir ao supermercado ou pagar algumas contas de água ou energia. Mas ultimamente nem mesmo tais obrigações me levavam a descer aquelas escadas e abrir a porta da rua. Há cerca de três meses a empresa de energia elétrica cortara o fornecimento de energia da casa e eu não sentia a menor vontade de resolver tal problema. A escuridão causada pela falta de energia parecia atenuar o meu sofrimento apesar de compactuar perfeitamente com o estado em que eu me encontrava. Ali no escuro eu parecia me sentir melhor, não conseguia enxergar meu rosto no espelho e tampouco perceber o estado de desleixo em que o apartamento se encontrava.
Lembrei me de Laura, se ela estivesse ali provavelmente não permitiria que tudo chegasse àquele ponto,mas há tempos a vida nos afastara e eu nem mesmo sabia onde ela se encontrava, quem era agora, como vivia, com quem vivia, nem ao menos sabia se vivia. Não conseguia compreender como aquilo era possível, depois de tudo o que passamos juntos o destino não poderia agir daquela forma, não poderia nos afastar, apesar de todas as previsões feitas por Hugo. Custei a acreditar que aquelas previsões fossem realmente se concretizar. E agora eu me encontrava ali sem um amigo sequer.
Não sabia onde estava Laura.Há tempos não via Hugo,não tinha a menor noção de onde Raquel morava, havia perdido todo o contato com Valter e Fernando, não tinha noticias de Ricardo, Renato ,Isadora ou Lucia.
Mas apesar de tudo era Ana quem mais me fazia falta. Como pude permitir que a gente se afastasse tanto? Desde aquele show há quinze anos atrás não a via e sua mudança para São Tomás nos afastara completamente. Mesmo sabendo que era necessária,nunca aceitei completamente aquela viagem. E desde aquele dia a minha vida mudara tanto que acabei me esquecendo do quão feliz um dia eu fui. Até o dia em que finalmente nos reencontramos...
amsterdam, para gui
Há 5 anos
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