quarta-feira, 20 de maio de 2009


E mesmo que o amanhã seja ontem

Ou que o ontem seja o mês que vem

Hei de permanecer estanque e inquieto

Posto que o teu sangue em pó ainda mancha

os lençóis de uma cama esquecida,

de uma fronha que cobre os sonhos

largados à mercê da empregada que

já empurrou pra debaixo do tapete

todos os cacos de vida que deixaste

espalhado pelos cantos da casa

E dentro do armário ainda guardo

o tecido da tua pele

Que nem o tempo com suas garras de dragão insone

há de rasgar ou envelhecer.

Sobre a mesa ainda está o resto do vinho,

batom e saliva em um copo de extrato

de onde extraí o que pude de ti.

Debaixo da cama ainda resta uma meia

com o meio de mim e a lembrança inteira

da saudade que ainda carrego no peito.

E espero um dia quem sabe

remir a minh'alma da tua.

Das frases remoques que ainda

permeiam meus sonhos.

Parcos sonhos que vez ou outra vencem

a insônia que me deixaste ao partir.

E além da insônia, dos cacos,tecido,

do copo ou do sangue só resta a vontade

de um dia te ver novamente.

E já não pretendo fazer-me longevo

pois não me interessa o amanhã ou depois.

Só o que pretendo é deitar-me na cama,

e assim como o teu ver meu sangue jorrar.

Me levar pra um lugar que nem sei se existe.

Mas já não me importa se tenho a certeza

que irei te rever,viver ou morrer ao teu lado.

Ao lado de um sonho distante e remoto

Que há tempos permeia minhas vagas lembranças.

Lembranças de alguem que nem sei se existiu...

sábado, 16 de maio de 2009

Pedinte, violão e nostalgia


-Pode me dar três minutos de sua atenção?!
Essa fora a primeira frase dita entre aqueles dois que pertenciam a mundos tão diferentes e tão parecidos ao mesmo tempo. O primeiro, um jovem andarilho do sertão pernambucano que dormia sob a marquise de uma agência bancária. O segundo, um ainda mais jovem estudante de medicina oriundo do interior da Bahia.
Naquele dia, ambos estavam solitários, próximos ao rio, e Rômulo assistira pacientemente a peregrinação de Juarez mesa após mesa, sendo ignorado veementemente a cada tentativa de aproximação com os clientes da lanchonete. Em uma das mesas , uma criança brincava e seus cachos dourados voando sob a brisa do rio lembravam um pequeno querubim;Juarez tentou se aproximar para brincar com o pequeno, mas o pai do garoto o puxou tão rapidamente como se o simples contato com o mendigo pudesse provocar a mais grave das doenças na criança. E foi assim mesa após mesa que Juarez chegou aonde Rômulo esperava sozinho por seu pedido. Juarez se aproximou, pediu uma ajuda e explicou pacientemente a sua situação a Rômulo, que atentamente o escutava. Terminada a explicação, Rômulo pagou um lanche para o rapaz, que com os olhos cheios de lágrimas agradeceu repetidamente por ter sido Rômulo a única pessoa a ter lhe dado atenção naquele dia, agradeceu e se dirigiu ao outro lado da rua, onde uma roda de garotos vestidos de preto tocavam violão e cantavam músicas antigas.
Aquelas músicas traziam ao jovem estudante um ar nostálgico que ele adorava, sempre gostou de relembrar o passado, sobretudo quando as lembranças eram boas. Sentiu saudades dos tempos da escola , quando se reunia com os amigos na praça para tocarem e cantarem horas a fio sem se preocupar com o que viria a acontecer no dia de amanhã. Não diria que "era feliz e não sabia" , como sempre citaria o velho chavão. Sim, ele sabia que era feliz, e sabia que um dia sentiria falta daquilo, mas não queria que esse dia chegasse tão depressa! Sentiu vontade de se aproximar da roda e passar o resto da noite ali, fingindo que aqueles eram seus velhos amigos, fingindo que o tempo poderia voltar um pouco, fingindo que seu mundo ainda era o mesmo de anos atrás, fingindo que não tinha nada com o que se preocupar, fingindo que a beira do rio era a mesma praça onde anos atrás passava suas noites, fingindo que sua mãe o esperava em casa para recebê-lo chateada por ele ter chegado tarde.
Mas sabia que não podia, aqueles não eram seus amigos, sua mãe estava a quilômetros de distância em pleno dia das mães, aquela não era sua praça e sim, ele tinha com o que se preocupar. Decidiu voltar pra casa e estudar para a prova da manhã seguinte. Passara o resto da noite lembrando da triste figura de Juarez, algo lhe dizia que logo logo voltaria a encontrá-lo e que de algum modo dali pra frente sua vida jamais seria a mesma.